quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

A dor cíclica



Eu sou dor em toda sua sutileza.
Sou a dor inebriante da loucura;
Sou também o lacerar da tristeza;
As fisgadas constantes da sutura.

Fui a forte dor das contusões injustas,
recebidas co'olhos interrogativos.
Fui a dor imputada, às minhas custas,
a mim mesmo por meus objetivos.

Serei toda a dor das escolhas certas;
a dor das mesmas dúvidas plurais.
Quando as cicatrizes forem abertas,

as minhas vidas estarão libertas
a fim de que encontrem uma vez mais
as dores que não cessarão jamais.

Pintura de Roberto Parda

domingo, 25 de maio de 2025

Autobiografia


A luz ofuscante que me faz acordar
me cega e me guia a um só lugar.

O ar sibilante que me faz prantear
me afoga e alivia, tão salgado mar.

Então eu me empurro, me ponho de pé…

Desbravo meu mundo, vou contra a maré.


Depois eu me deito, me pega o cansaço.

e, neste segundo, outra luz eu abraço…


Pintura de Caspar David Friedrich

quarta-feira, 23 de abril de 2025

Um continuum


A vida simplesmente dá.
Sem a possibilidade de recusa,
ela nos acua com seus presentes:
uma dor, um amor, uma alegria confusa...
E nos deixa assim tão dormentes
sem perceber que alguém nos usa.

Depois.

A vida simplesmente toma.
Ela avança sobre nós e nos furta
mesmo a mais ínfima das alegrias;
dardeja em nosso peito essa curta
lâmina que se converte em agonias.
E nos sangra, nos prende, nos surta...


Arte de Luiz Bagno (Instagram: @luizbagno)

domingo, 23 de fevereiro de 2025

Memória Traumática


Hoje eu tenho novas inquietudes
sob as quais as antigas repousam.
E, no leito, os pensamentos ousam
reviver as mesmas memórias rudes.

O impacto, esse não mais existe.
Mas, sobrepujando esse conforto
de perceber que superei tal horto,
sei que uma dor ainda persiste.

Leve, mínima, quase imperceptível,
às vezes, totalmente vencida...
Então, esse meu engano revida:
ainda tem forças e torna-se crível.

E, cumprindo seu papel, convoca
mais outras para o seu bacanal
e todo o meu eu sucumbe ao mal,
que a mim, tão pequena dor provoca.

Pintura de Mikael (artista surrealista dos Países Baixos conhecido pelo perfil eye_leakim nas redes sociais)

terça-feira, 19 de novembro de 2024

Maturescência?




Olá! Eu não estou em casa...
Em meu lugar, ficou meu futuro,
hoje, presente que extravasa
o passado do qual me curo.

Se foi quem você conhece...
Te machuca eu não estar aqui?
Minha ida é a antiga prece
que ainda grita e padece
os tormentos que uma vez suprimi.

Mas se foi quem você quer...
Importam agora os sentimentos?
Os nossos foram quaisquer
desejos isentos que sequer
resistiram aos ínfimos momentos.

Pintura de Steve Walker

segunda-feira, 2 de setembro de 2024

A crise



Eu não me conheço...
Nem sei mesmo meu nome.
As faces que que hoje enrijeço
são sintomas dos quais padeço
desta fome que a mim consome.

Eu não me conheço...
Não sei como cheguei aqui.
Como me tornei o avesso
daquilo que cria ser o espesso
rio do qual um dia afluí?

Eu não me conheço...
Nem sei como me desconheci.
Se um dia já tive o apreço
pela imagem que hoje mereço
sofro agora pelo eu que não socorri.

Pintura de Fabian Perez

terça-feira, 11 de junho de 2024

Drama onanista


A finitude parece um pouco mais perto,
tocando partes do meu corpo aos poucos,
roendo as carnes como vermes loucos
em cadáver putrefato, indigente e incerto.

A fria letargia que antecipa a derrota
sufoca a alma ansiosa, sem qualquer rumo.
Aperto o órgão pulsante com o qual assumo
o triste fim deste ser cuja vida se esgota.

Pintura de Paul Richmond

quinta-feira, 21 de março de 2024

Eu não tenho medo da solidão...



Eu não tenho medo da solidão...
Ela é a única que me deixa ser eu de verdade;
a única que me despe desta personalidade.

Eu não tenho medo da solidão...
É ela que me faz conhecer a mim por completo;
me faz enxergar as nuances de um desafeto...

Eu não vou evitar a solidão.
Pelo contrário, vou abraçá-la e aceitá-la.
Pois é nesse conforto em que me encontro são.

Pintura de Ira Withacker

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

Estilhaços


Eu procuro em ti pedaços meus;
partes de mim desencontradas
que em algum momento de adeus
se desprenderam qual criaturas aladas.

Eu busco em ti algo pronto
um encontrar-me, um remendar-me...
Mas sei que fujo do real confronto
ao simples soar de um alarme.

O medo que de mim se apodera
é o medo da terrível descoberta:
de ver no espelho aquela fera

que entre tantos dentes me aperta.
E notar que todos os meus pedaços
estavam aqui em diferentes laços.

Pintura de Jacqueline Marr


sexta-feira, 17 de novembro de 2023

Ainda me lembro de ti



Ainda espero uma resposta tua...
Uma daquelas que confortam
os anseios loucos que me cortam
e que me impeça de atirar-me à rua.

Ainda lembro da tua pele nua...
Dos vários beijos descontrolados;
dos suspiros longos, demasiados;
do abraço que hoje de mim recua.

Ainda somos a parte crua...
Um possível projeto incompleto;
um quase de dores repleto
que em ninguém mais se situa.

Pintura de Steve Walker

terça-feira, 3 de outubro de 2023

Desistência



Eu quero desacelerar...
Quero frear o tumulto dos contatos humanos.
Implodir as bases do meu corpo,
lançar-me ao êxtase dos mais simples enganos.

Eu quero descansar...
Quero me entregar ao mais profundo sono.
Esquecer o mundo externo,
as pessoas, o trabalho e entrar em abandono.

Eu quero inexistir...
Quero viver tão somente em mim e para mim.
Levitar em sonhos eternos,
em nuvens de devaneio e morbidez sem fim.

Eu quero dormir...
O sono mais letal...

Pintura de Daniela Savini


domingo, 13 de agosto de 2023

Eu tenho medo de permanecer...


Eu tenho medo de permanecer...
Tenho medo de aprisionar-me
e que depois ninguém desarme
o explosivo que eu viria a ser.

Eu não quero me tornar mais um.
Mais um dos Sísifos conformados
que não conseguem olhar os lados
da louca sina cíclica, tão comum.

Eu quero minha mente inquieta
mesmo que seja por qualquer loucura.
Quero ouvir a voz que me afeta,

que me lança na dor e completa,
dentro da mesma névoa escura,
o local onde um dia já vi brancura.

Pintura de Tomasz Alen Kopera

quinta-feira, 29 de junho de 2023

Consumpção




O que me move?
O que me impele?
Qual revolta rasga tua pele?

Qual lágrima foi responsável
pelas feridas na tua alma?
Ainda que eu disponha de calma
não há nada mais viável
do que a dor na mão que se espalma.

E a mão, agora inerte,
apodrece, em nada se converte...
A garra fúnebre da morte cresce,
me aperta, sufoca... meu eu fenece.

Arte de Sabatino Cersosimo

segunda-feira, 17 de abril de 2023

A grande obstinação


O medo do óbvio me consome,
convertendo em lágrimas frias
a verdade há tanto retraída...
Perdi o desejo, a sede, a fome...
Me deitei, adormeci nas agonias
deste padecer ainda sem nome.

A verdade que só a mim perturba
sempre esteve aqui me arranhando...
Pequenos rasgos, úlceras mortais
nasciam em mim como grande turba
de vermes putrefatos fervilhando
na mente que a si mesmo se conturba.

O inalcançável sempre foi premeditado
desde as primeiras linhas escritas.
O mesmo espetáculo, um novo ator,
se desenlaça com o enredo ensaiado.
Ainda que com possibilidades infinitas
persisto na dor e a mantenho ao meu lado.

Arte de Heitor Silva

terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Uma ideia



As mesmas forças que ditam,
que mesclam nossos quereres,
são as mesmas que a mim gritam,
rosnam, me impedem e me limitam
diante do mais ínfimo dos prazeres.

Elas, há tempos, se fazem presentes.
Não importa onde qualquer um de nós vá,
voam silenciosas, surdas e inconscientes.
Letais como um câncer, corroendo mentes
que logo desistem de crer, de ser, de estar...

Nesta mortal mestiçagem eugênica
tentamos sobreviver a todo custo.
Alimentamos uma sanidade cênica,
um tipo de embriaguez esquizofrênica,
para estar, ser e crer num mundo justo.

Arte do meu querido Heitor Silva.

domingo, 22 de janeiro de 2023

Constante Inconstância


Me desconheço...
Acreditei em mim mesmo,
em um eu avesso
às ideias que me impus.
E continuei a esmo...
Num silencioso tropeço
enxerguei a luz:

Me vi tão frágil,
me afogando em emoções...
E sempre o presságio
da loucura, dor e medo
me engolia sem quaisquer razões.
Neste solitário naufrágio
compreendi o enredo:

Eu sou inconstante.
Acreditei no começo,
no alvo distante
que me molda gradualmente.
Assim eu subo e desço
como eterna variante
de um eu que apenas sente.


Pintura de Paul Arts
(Atualmente a obra compõe o acervo da galeria Emillions Art)

terça-feira, 22 de novembro de 2022

Deslocado



Ando me desencontrando de mim mesmo;
me perdendo por inteiro em olhares opacos.
Há uma força que me impele a viver a esmo,
que me puxa e me envolve em braços fracos.

Minhas ações já não fazem parte de mim;
meus pensamentos, desconexos e nebulosos,
como aves sem pouso, voam para o seu fim...

Não me reconheço entre os meus pares.
Será que realmente necessito de outros ares?

Ou o mundo simplesmente me quer assim?

Pintura de Lahiru Karunasena

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

Toque




Sentir o toque vivo e involuntário
de qualquer parte da cálida pele
deste teu corpo me faz ser vário
é um vício que me torna usuário
desta droga que a ti me compele.

A mais tenra fricção é responsável
por maquinais espasmos almejados;
por suspiros retidos em instável
desejo febril, tal fera amigável
que lambe, morde por todos os lados...

Todo o corpo rendido à louca fome...
Mãos famintas e uma língua sedenta
ansiosa, perscrutando um abdome,
acendem a volúpia com o meu nome
sussurrado numa carícia lenta.

Pintura de Paul Richmond


sábado, 3 de setembro de 2022

Divã



Qual é o problema?
O problema sou eu.
O problema é você.
O problema está em mim 
e em qualquer um que crê.

O que é o problema?
O problema é um querer;
é uma vontade de crescer;
é um desejo de morrer;
é uma ausência de viver...
Qual é o tema do teu problema?

De onde vem o problema?
O meu problema vem de dentro;
vem de fora, vai embora...
Volta e me arremessa para o centro
da dor e o desespero, aflora, chora...
De onde vem o teu problema?

Quais dos teus problemas são teus?
Quais dos teus problemas são meus?
Quantos são os teus problemas?
Quando são...?
Onde estão...?
Os dos outros?
Os nossos...

Pintura de Alberto Pancorbo

domingo, 3 de julho de 2022

Ciúme: a dor expectante



Que forma tem a dor?
Qual a cor dela?
A minha dor é uma silhueta...
A silhueta de uma entrega.
A minha dor tem cor de facilidade,
uma cor escura e distante
que eu não alcanço.

A minha dor também tem movimento.
Ela se move num beijo longo e demorado
salpicado daqueles curtos
com gosto de despedida 
e de até logo.

A minha dor me deixa inerte.
O que se move em mim
é o pulsar acelerado;
é o nó na garganta que tento engolir;
é o piscar dos olhos
para conter lágrimas.

Por que o premeditado dói?
Acredito que o que dói
é a rapidez e a forma (in)esperada
com que ele chega.

Não. Eu não quero ser a silhueta.
Não daquela forma.
Eu não quero ser ou causar facilidade.

Que forma tem a dor?
A dor tem a forma que eu nunca quis.
Eu a projetava em meio a intrigas.
Mas ela veio, fácil demais.
Inesperada.

Com o que a dor se parece?
A minha é um Gustav Klimt
feito de sombras.
Mas sabe por que dói mais?
Porque foi fácil...

Que forma tem a sua dor?
A minha é uma silhueta...
Mas na verdade ela foi uma entrega...
Fácil... Fácil demais.

Pintura de Gustav Klimt

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